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“Cabular” o aquecimento não é uma boa ideia

Escrito por:Adriana Halbe | 6 minutos de leitura

O aquecimento aciona os mecanismos neurológicos que reorganizam seu organismo para receber o exercício.

O aquecimento faz parte da composição de um treinamento eficiente que muita gente fica tentada a pular – e acaba pulando. A desculpa é sempre a mesma. “Tenho pouco tempo para treinar!” “É perda de tempo!”. No entanto, o aquecimento ajuda a preparar o corpo para o bom desempenho orgânico na atividade física e ajuda a reduzir o risco de lesões.

O motivo

Sob o aspecto metabólico, ao iniciar a prática de um exercício ou de uma atividade esportiva, pode-se dizer que o corpo passa de um estado de repouso para um estado que requer maior demanda de energia. Para que haja uma transição saudável entre essas duas fases é imprescindível que o sistema músculo esquelético tenha condições metabólicas para reagir com eficiência a demanda energética exigida por uma atividade específica. O aquecimento promove de forma real o preparo do organismo para a demanda energética que será exigida para um bom desempenho físico e energético.

Sob o aspecto do controle motor, o aquecimento confere uma “recalibragem” do nosso sistema sensório motor para que possamos receber a atividade de forma mais organizada e ainda, prepara as vias neurais para funcionarem de maneira apropriada frente a ameaças a estabilidade e a orientação postural.

Sob o aspecto biomecânico, o aquecimento pode funcionar como uma estabilização prévia a execução de uma atividade. Pode conter ajustes individuais necessários e exercícios específicos para “encaixar” o indivíduo para a prática esportiva de forma eficiente a prevenir lesões.

Assim, o aquecimento prepara nosso sistema como um todo para receber o exercício.

No caso dos exercícios aeróbicos, um dos objetivos do aquecimento é, portanto, antecipar a elevação do metabolismo aeróbico e diminuir o débito de oxigênio.

O início súbito do exercício físico prejudica a eficiência de respiração celular e ocasiona desconfortos musculares e, por vezes, fadiga cardiovascular. O aquecimento incrementa a vascularização tecidual e prepara o sistema cardiovascular para a demanda selecionada. Assim, reduz a percepção do esforço físico por modular as vias metabólicas previamente a execução da atividade.

Performance

Uma revisão de estudos sobre o tema publicada em 2010 apontou que o aquecimento proporciona melhora na performance do praticante do exercício e que favorece ganhos importantes para o organismo. Um outro estudo, publicado em 2015 na National Library of Medicine, dos Estados Unidos concluiu que foram encontradas fortes evidências de que o aquecimento ativo e dinâmico de alta carga aumenta o desempenho de potência e força.

O aquecimento pode ser passivo ou ativo.

O passivo, inclui fontes de calor externas como duchas quentes, fricção e massagem.

O aquecimento ativo pode consistir de exercícios específicos ou de movimentos de baixa intensidade que elevam a temperatura corporal, promovem aumento na vascularização e por conseguinte aquecimento dos tecidos e incremento das funções fisiológicas. Podemos configurar exercícios de estabilização dentro dessa categoria.

Muitos atletas por facilidade optam em executar como aquecimento o início lento e gradual da atividade em questão. No entanto, deve-se ter em mente que quanto maior a especificidade individual do aquecimento em respostas às necessidades orgânicas específicas para a demanda de uma atividade, melhor o desempenho esportivo e mais eficiente será o aquecimento. Isto é, se um atleta é corredor e ele fizer como aquecimento alguns exercícios específicos de correção postural juntamente com movimentos específicos da corrida, seu aquecimento será mais eficiente para a prevenção de lesões e para o melhor desempenho na corrida.

Os exercícios de aquecimento corretivos específicos por acionarem as vias de memória motora realizam uma recalibragem do sistema sensório motor, melhorando a coordenação motora, a performance do atleta e reduzindo o risco de lesões.

Os ganhos

O aquecimento proporciona:

Aumento do fluxo sanguíneo e oferta de oxigênio. O aumento no fluxo sanguíneo ajuda os músculos a obterem a nutrição de que precisam antes de iniciar um trabalho mais intenso.

Mais mobilidade. Ao preparar o sistema músculo esquelético a uma demanda específica, estimula-se a correta execução dos movimentos nas articulações exigidas na atividade em questão, assim, conquista-se maior controle motor e, portanto, maior mobilidade articular.

Menor risco de lesões. Ao aumentar a vascularização tecidual, incrementa-se as respostas metabólicas e portanto, aumenta-se a capacidade orgânica de resposta frente a agentes desestabilizadores.

Aumento de performance. Estudos mostram que o aquecimento aumenta a eficiência no treinamento físico.

Menos tensão muscular e dor. Aquecimento muscular promove a reorganização da musculatura tônica do corpo. O aquecimento por promover uma maior vascularização, facilita o recrutamento da musculatura profunda (tônica) que necessita maior suprimento de oxigênio. Assim, facilita a harmonização no recrutamento da musculatura e equilíbrio no dispêndio energético. Muito das tensões musculares decorrem de acionamentos musculares indevidos.

Aquecimento e alongamento: alongamento ativo em detrimento do passivo

Dentre a variada gama de exercícios que contribuem para o aquecimento, podemos encontrar o alongamento. Contudo, o que aparentemente parece ser um procedimento muito simples, na verdade envolve um mecanismo extremamente complexo de regulação periférica do movimento. Ao alongarmos um músculo, estaremos interferindo com a circuitaria do reflexo miotático, que tem como função primária, entre outras, a proteção do organismo. Os mecanismos de controle da motricidade nos ensina que a morfologia e fisiologia deste arco reflexo constitui a via final comum para as informações eferentes segmentares ou suprasegmentares, que em última análise produzem a expressão motora dos comportamentos, quer de caráter postural ou dinâmico.

Assim, o ato de alongar exige especificidade e reconhecimento das vias de controle da motricidade e não apenas ter conhecimento do sistema músculo articular.

A prática do alongamento é bastante controversa para prevenção de lesões. O alongamento passivo se executado indevidamente pode estressar as estruturas ligamentares, descalibrar os receptores sensoriais presentes na musculatura e ainda gerar instabilidades e lesões.

Estudos apontam que alongamentos ativos, por acionarem os mecanismos voluntários de controle motor, tem demonstrado um efeito salutar para o preparo das vias neuromusculares e conseguinte melhoria no desempenho motor.

No entanto, deve-se sempre solicitar auxílio profissional para adequação específica de qual aquecimento configura-se mais efetivo para a demanda energética que será exigida. Quanto maior a especificidade na seleção do aquecimento apropriado, mais efetivo para prevenir dores e lesões, e ainda, melhorar o desempenho esportivo.

Sobre o autor

Fisioterapeuta graduada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Especialização em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido na Saúde, na Doença e no Envelhecimento pelo CECAFI - Centro de Estudos em Ciência da Atividade Física da Disciplina de Geriatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). Especialização e pós-graduação em Acupuntura e Eletroacupuntura pelo Colégio Brasileiro de Acupuntura e Medicina Chinesa (CBA), São Paulo em parceria com a Universidade São Judas Tadeu. Estudos continuados com Giovanni Maciocia, California Acupuncture Board, NCCAOM. site: www.ahalbe.com.br Instagram: @adrihalbe

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